“URSAL é para os fracos”: jovens sindicalistas iniciam projeto formativo simultâneo na América Latina

Primeiro encontro do programa brasileiro foi realizado no litoral de São Paulo e envolveu dirigentes de entidades ligadas à IndustriALL de várias regiões do país.

Escrito por: Redação CNTRV.

 

Na mesma semana em que a pérola da vez foi a “revelação bombástica” de uma espécie de conspiração comunista em prol da integração da América Latina, o que levou a hashatag “ursal” para o topo do facebook, jovens sindicalistas de diversos setores da indústria se reuniram na Praia Grande, num projeto (real) que tem como objetivo fortalecer os sindicatos e a luta por melhores salários e condições de vida e trabalho para a classe trabalhadora latino-americana e caribenha, especialmente os mais jovens.

O projeto denominado Educação e Potenciação Sindical Regional da Juventude da IndustriALL na América Latina e Caribe será desenvolvido de 2018 a 2020, em parceria com a DGB, uma das maiores centrais sindicais do mundo, sediada na Alemanha. O projeto acontecerá simultaneamente no Brasil, Argentina, Nicarágua, México e Colômbia.

O primeiro encontro brasileiro, realizado nos dias 9 e 10 de agosto, na Praia Grande, litoral paulista, reuniu jovens dos setores têxtil/vestuário, químico e metalúrgico e tratou de temas relevantes para a organização da juventude nos sindicatos e nos locais de trabalho.

“O sindicato, de forma geral, não atrai a atenção da juventude trabalhadora. As razões são inúmeras e vão desde o formato das atividades até suas pautas que, na maioria das vezes, não se relacionam de forma direta com os mais jovens”, apontou Welington Silva, um dos cursistas do ramo vestuário da CUT. Wellington é dirigente do Sindicato dos Calçadistas de Itapetinga, município baiano localizada a 450 quilômetros de Salvador.

 

Projeto possibilita troca de experiências e integração de realidades

Também representando a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Ramo Vestuário da CUT (CNTRV), está a jovem sindicalista Jocelaine Marcelino de Souza, de 29 anos,  que viajou mais de mil quilômetros para chegar de Riozinho, cidade gaúcha localizada na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, até Praia Grande. A sindicalista, que exerce o cargo de tesoureira em sua entidade, considera que o projeto da IndustriALL é um espaço importante para a sistematização de propostas que busquem ampliar a participação da juventude nos sindicatos.

“Nas experiências compartilhadas pelos participantes, pude observar que a organização da juventude e as oportunidades de integração e participação  é um grande desafio do movimento sindical. Faço parte da diretoria mais jovem entre os sindicatos do setor calçadista do Rio Grande do Sul e reconheço as dificuldades em formar novos quadros.  Os próprios sindicatos não possibilitam espaços onde a juventude posssa se organizar e discutir pautas específicas. Em muitas entidades, as ideias e propostas dos mais jovens não têm a mesma receptividade que as dos dirigentes mais experientes e isso se transforma numa barreira.  Na prática, não há muita motivação para que os trabalhadores e trabalhadoras jovens se tornem sindicalistas”, comentou.

Projeto integra jovens sindicalistas de regiões diferentes do paísProjeto integra jovens sindicalistas de regiões diferentes do país

 

Para Wellington, o caráter nacional do projeto possibilita a integração de realidades e fortalece a construção do conhecimento. “A troca de experiência nos fez enxergar que os modelos de organização não são exatamente iguais e é assim que deve ser. Cada região tem suas particularidades e seus próprios elementos culturais que devem ser considerados para a organização da juventude trabalhadora”, analisou o sindicalista que revelou: “jamais achei que iria conhecer um companheiro do DIEESE”, disse orgulhoso por fazer parte do projeto e ter a oportunidade de ampliar seu conhecimento.

Welington e Jocelaine - Jovens sindicalistas do ramo vestuário da CUTWelington e Jocelaine – Jovens sindicalistas do ramo vestuário da CUT

 

Mulher, jovem, trabalhadora e sindicalista

Em entrevista para a redação da CNTRV, Jocelaine destacou ainda que para as mulheres jovens e sindicalistas, o desafio é ainda maior. “Se o fato de ser jovem e ter pouca experiência na área sindical dificulta nossa relação com as direções sindicais mais experientes, ser jovem e mulher dificulta ainda mais. Ao mesmo tempo em que precisamos discutir o fortalecimento da juventude sindicalista, temos que levar em conta o quanto as mulheres são vítimas de assédio,  preconceito e machismo. Além disso, existem muitas trabalhadoras jovens que já são mães e assumem  prioridades naturais da maternidade, o que dificulta ainda mais a militância sindical”.

 

Apoio

Para Jocelaine, o apoio das direções sindicais mais experientes e da própria família é muito importante para que uma mulher jovem decida ser sindicalista e encontre tempo para a militância. “O apoio da família é essencial para atuação das mulheres jovens no movimento sindical. Também é importante que as pessoas mais experientes nos nossos sindicatos nos apoiem. Nossa visão é diferente em muitos aspectos pelo fato de pertencermos a gerações distintas, mas todas as gerações têm muito a contribuir na luta e organização da classe trabalhadora”, destacou.

 

Próximos passos

Cada país que integra o projeto terá 2 seminários em cada ano do percurso formativo. No total serão seis encontros por nação.

No Brasil, o próximo Seminário será realizado nos dias 13 e 14 de setembro em São Paulo, quando serão discutidos temas inerentes à Industria 4.0. “Iremos debater os desafios dos sindicatos e da juventude frente às transformações tecnológicas que alteram o processo produtivo e, consequentemente, as relações de trabalho”, adiantou Josenildo Melo, assessor da CNTRV.

O Projeto prevê a realização de seis seminários temáticos até 2020O Projeto prevê a realização de seis seminários temáticos até 2020

 

IndustriALL

A IndustriALL Global Union é uma federação sindical internacional que representa cerca de 150 milhões de trabalhadores nos setores industriais. Está presente em todos os continentes e mantém uma série de ações para organização dos trabalhadores e trabalhadoras latino-americanos e caribenhos.  Detalhe: ela não faz parte da “URSAL”.

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